quinta-feira, 21 de abril de 2011

Brasília 51. Uma boa ideia?

Foto: Mara Melo

Vinte e um de abril, aniversário de Brasília. Há 51 anos a capital do país trocava as areias cariocas pela aridez do cerrado. Até hoje persiste a polêmica: será que foi um bom negócio?

De um lado, reclamam que foi um projeto faraônico de JK, a dívida externa cresceu, o Rio de Janeiro foi abandonado etc. De outro, que a mudança trouxe desenvolvimento para o interior, que o centro do poder merecia mesmo um lugar especial, e a construção da cidade foi uma epopeia digna das grandes civilizações.

Acho que os dois lados têm suas razões. Seja como for, Brasília agora é uma jovem senhora; virou metrópole, com todos os problemas e vantagens que isso traz. O mais bacana por aqui é morar, de fato, num caldeirão cultural, conviver com gente de todos os cantos do país. Uma mistura democrática de sotaques, costumes e ritmos. Isso não se acha em qualquer cidade. Esse é o lado bom. Os políticos? O preço a pagar.


sábado, 16 de abril de 2011

Uma tarde na cracolândia


Desci na estação da Luz às 3h da tarde. O céu estava escuro e pelo jeito a tempestade não ia demorar. Contornei o prédio, caminhei uns três quarteirões e cheguei à casa amarela onde funciona a Missão Cena. Fui recebido por João, o presidente da entidade que atende dependentes químicos na cracolândia.

Conversamos por cerca de meia hora. Ele me mostrou o que chama de “kit noia”, uma bolsinha com vários isqueiros e cachimbos artesanais feitos em madeira, metal e até caroço de azeitona. Falou sobre o trabalho da ONG, que oferece oportunidade pra quem quer deixar o crack. “Menos de 5% conseguem”, disse.

Convidou-me para um passeio pelas redondezas. “Prepare-se para o que vai ver!”, advertiu. Deixei carteira e celular no seu escritório. Seguimos a pé pelas ruas decadentes da região, outrora área nobre de São Paulo. Não demorou para cruzarmos com os primeiros “noiados”. Magérrimos, esfarrapados e olhar perdido, perambulam pelas ruas sem destino e com um único pensamento: fumar mais e mais pedras.

Ao virar a esquina em frente à Sala São Paulo, imponente sede da Orquestra Sinfônica do Estado, o cenário é de horror. Umas 300 ou 400 pessoas alucinadas se amontoam nas calçadas consumindo, traficando e desfrutando dos poucos minutos de “onda” que cada cachimbada oferece. Zumbis saídos de um filme apocalíptico.

Caminhamos entre eles. Muitos vinham em nossa direção: “Pastor, me ajuda a sair dessa!”. Sim, João é pastor evangélico, e me impressionou o respeito que ele conseguiu daquela gente. Conversei com viciados, traficantes, prostitutas e comerciantes. Vi a PM chegar num camburão e dar uma dura em alguns usuários, enquanto a horda corria para outros quarteirões. Do alto, um helicóptero da TV Record filmava tudo. Foram quase duas horas na cracolândia. Uma experiência sensorial, com imagens, sons e cheiros únicos e desagradáveis.

Despedi-me do pastor João com um abraço. Tinha pressa. Meu voo para Brasília sairia dali a duas horas, e a tempestade continuava a se formar sobre nossas cabeças.

sábado, 9 de abril de 2011

Perigosa vizinhança


O vazamento radioativo em Fukushima, Japão, reacendeu o debate sobre a segurança da energia nuclear. Os países mais ricos logo correram a dizer que as usinas atômicas não são, assim, nenhuma bomba-relógio prestes a nos mandar pro beleléu.

Aqui no Brasil o complexo de Angra I e II também voltou a ser questionado. Nesta semana visitei o lugar, para uma reportagem sobre os riscos das comunidades vizinhas em caso de incidentes. Em meio às sinuosas curvas verdes e azuis da Rio-Santos fica difícil imaginar que, logo ali na frente, a mata Atlântica foi substituída pelas duas grandes cúpulas brancas que guardam os reatores de Urânio.

Lá dentro, vigilância total. Preenchi uma detalhada ficha de acesso, recebi capacete e óculos especiais, desliguei meu celular e tive uma aula de energia atômica. Como nunca fui bom em Física, não captei boa parte do que disseram. Mas fiquei sabendo, por exemplo, que 3% da eletricidade usada no Brasil vem dali. E que a totalidade dessa produção se destina a Rio e São Paulo. Vi também as obras de Angra III, que devem ser concluídas em 2015, e conheci o plano de retirada da população em caso de vazamento.

Saí e fui conversar com as comunidades. Perguntei às pessoas simples, no meio da rua, se elas não têm medo de morar tão perto da central nuclear. Têm sim. Lembraram que a rodovia é estreita, os deslizamentos são constantes e frequentemente a pista é interditada no período chuvoso. Ficaria difícil fugir se houvesse um desastre.

Voltei à usina. Perguntei a um dos diretores o porquê da escolha de um dos lugares mais belos do Brasil, verdadeiro tesouro ambiental, para aquela empreitada. Além disso, bem no meio das maiores metrópoles do país. “Isso foi no regime militar. Os generais decidiram que iam fazer uma usina aqui e fizeram”, respondeu.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Metal família

Nesta semana quem tocou aqui em Brasília foi o Iron Maiden. Turnê mundial The Final Frontier. Claro que fui. E levei meus dois filhos. Eu e o mais velho já tínhamos visto o Iron dois anos atrás. Para o mais novo seria a estreia em grandes concertos. No caminho ele não escondia a expectativa. Disse que um amigo da escola, também fã de rock, pedira ao pai que o levasse ao show, mas o pai negou porque “lá só vai ter marginal”. Então tá.

Chegamos meia hora antes do início. O público era variado. Cabeludos quarentões, jovens casais, tribos metaleiras, malucos beleza, famílias inteiras – pais, mães, avós e crianças. Sim, avós e crianças.

Quando Bruce Dickinson, Steve Harris e Cia. subiram ao palco foi uma explosão. Não havia mais diferenças de idade. Todos pulando, cantando e balançando a cabeça. Especialmente em clássicos como Two minutes to midnight, Fear of the dark e Run to the hills. Duas horas de adrenalina, paz e amor.

Britânicos que são, os donzelas de ferro fecharam o espetáculo pontualmente às 23h. Saímos abraçados, felizes e puxando os refrões. Minha mulher, que tinha ido ao cinema, nos esperava no carro. No caminho de casa, pit stop no McDonald’s. Programa família total. Ao contrário do que pensa aquele senhor lá do início, nem todo roqueiro tem cara de bandido.

Neste vídeo, “Run to the hills”, gravado no Rio de Janeiro.


quinta-feira, 24 de março de 2011

Troca de óleo

Parei num posto pra trocar o óleo do carro. Falei que queria colocar sintético e também substituir os filtros de óleo e de ar. O cara suspendeu o carro no elevador, pegou uma chave e começou um malabarismo pra alcançar o parafuso. “Não tem que tirar primeiro a chapa de proteção do cárter?”, perguntei. “Não”, respondeu sem mais conversa. “Das outras vezes o rapaz tirou”, repliquei.

Sentei num banco em frente pra acompanhar a operação. Tava difícil encaixar a chave, não tinha ângulo. Mas ele não deu o braço a torcer. Quer dizer, se retorceu todo mas não quis tirar a chapa. Após algumas tentativas frustradas foi buscar uma ferramenta maior. Voltou, suou mais um pouco, até que finalmente, num último golpe, o líquido começou a escorrer. Preto e vermelho; óleo e sangue. Na luta pra desenroscar o parafuso ele acertou em cheio a borda da chapa de aço. Abriu uma ferida abissal no dedo.

Disse um palavrão inaudível e saiu de cena novamente. Fiquei lá pensando na praga que é a preguiça humana. Se tivesse feito o processo direito não teria se machucado. Pensei em deixar pra lá e procurar outro posto. Mas agora meu carro estava sem óleo nenhum no motor. Esperei.

Depois de uns dez minutos o cara volta. Com um curativo na mão e um humor ainda pior do que antes.

quinta-feira, 17 de março de 2011

É o bicho


Tarde de sábado no Rio. Encontro um amigo em Laranjeiras e ele me convida pra botar o papo em dia num boteco perto de sua casa. Pedimos dois chopps e ficamos conversando na calçada, copos apoiados em barris de metal. Logo notamos um movimento constante em torno de dois senhores numa mesa ao lado. Eram bicheiros. Ou melhor, apontadores do jogo.

Tradicional e presente em quase todo o Brasil, o bicho é ilegal desde a década de 40. Nem parece. A turma fazia sua fezinha tranqüila, enquanto discutia a rodada futebolística do fim de semana.

Observando aquele movimento, lembramos que há tempos o jogo do bicho saiu das páginas da imprensa. Na década de 80 só se falava em Castor de Andrade, Anísio Abraão e outros barões que transitavam entre o submundo e a high society carioca. Hoje são os seus herdeiros que dão continuidade aos negócios. Mas é como se não existissem.

Vez ou outra, meu amigo, fumante inveterado, dava um passo para dentro do bar pra pegar mais um chopp no balcão. Numa dessas vem o dono, reclamando com aspereza: “Ô rapaz, é proibido fumar aqui dentro. Daqui a pouco vem a fiscalização e me ferra!”. Meu amigo responde na lata: “Quer dizer que jogo do bicho pode, mas entrar e sair um segundo com o cigarro na mão é proibido!?”

Silêncio total. O cara do bar ficou atônito, entre furioso e apavorado. Os dois bicheiros – apontadores - se entreolharam. Fizeram menção de se levantar pra falar alguma coisa com a gente. Decidimos pedir a conta e nos retirar. Lei é lei...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Grunges



Anos 90. O grunge zarpa de Seatle, noroeste dos EUA, para o topo das paradas mundiais. Nirvana, Alice in Chains e Pearl Jam simbolizam essa explosão cultural. A cidade, décadas antes, trouxera à luz Jimi Hendrix, para muitos o maior entre todos os guitarristas.

Hoje, assim como Hendrix, boa parte dos ícones do movimento só pode ser ouvida no passado. Poucos se mantêm na ativa.

O Pearl Jam sim. Mais de 60 milhões de discos vendidos ao longo da carreira. E neste mês de março, em comemoração aos seus 20 anos, a banda lança edições de luxo dos álbuns “Vs.” e “Vitalogy”, originalmente de 1993 e 1994.

Certa vez o vocalista e guitarrista Eddie Vedder disse que o nome Pearl Jam seria uma homenagem à geleia alucinógena feita por sua avó, na Seatle de sua infância. Mito? Provavelmente.

Sempre bom ouvi-los. Como neste show na Argentina. “Last Kiss” é triste, mas é ótima.