terça-feira, 7 de abril de 2015


Ontem à noite caiu uma chuva daquelas e – novamente! - faltou luz em casa. Meus filhos ficaram contrariados. Um jogava videogame no quarto; a outra assistia a um desenho na TV, interrompido “na melhor parte”. Espalhei umas três velas pela casa e fui para o quintal. 

A chuva passara. Fazia uma bonita lua cheia. Eles foram se chegando, cada um puxou uma cadeira e ficamos por ali, de bate-papo. Contamos histórias, lembramos canções sobre a lua, procuramos estrelas cadentes, rimos muito. 

Após mais de uma hora as lâmpadas de repente se acenderam e ofuscaram nossa noite. Olhamos uns para os outros e cada um correu pra um canto da casa para apagar as luzes. De volta ao prateado, retomamos nossa rodinha e por lá ficamos até a hora de ir dormir.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Amuleto canarinho



Durante a Copa do Mundo, Marina foi me visitar no Rio. Chegou lá no dia seguinte à vitória da seleção sobre a Colômbia. Ainda no aeroporto estendeu o braço e me disse orgulhosa: “Papai, sabia que o Brasil só ganhou ontem por causa dessa minha pulseirinha?”. Voltou pra Brasília na véspera da semifinal. Após os 7 x 1 contra a Holanda, ao chegar no hotel, fui mexer na papelada sobre a mesa e lá estava a bijuteria verde-amarela. Mais à noite liguei para casa e contei o que havia encontrado. E ela, convicta: “Não falei que o Brasil só tinha ganhado aquela vez por causa da minha pulseira?”.

terça-feira, 13 de maio de 2014

O homem do colchão

Já faz alguns dias que, ao sair do trabalho, por volta das 21h, deparo com ele no caminho pro estacionamento. Homem gordo, de meia idade, sentado num colchão ao relento e com uma garrafa pet nas mãos. Umas duas vezes dei a ele algum trocado. Ontem recusei. Passei direto de cara fechada. 

Ele ficou de pé. Olhei pra trás e ele abriu os braços. Pôs um sorriso na cara e tascou: "Sem problema, amigo. Vai uma carninha aí?" Foi aí vi a pequena churrasqueira, com dois tijolos e uma grade em cima, onde ardiam uma coxa de galinha e um retalho de carne. Declinei o convite, e entrei no carro desarmado.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Terra do queijo




Aí um amigo francês veio me visitar. Paramos numa lanchonete dessas que ficam oferecendo itens extras no sanduíche: 
- Mais molho? Mais salada? Mais queijo? Só R$ 1 a mais!
E ele, pra fazer graça:
- Queijo sim...já que sou da terra dos queijos. 
- Uai, o senhor é de Minas? Eu também!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Igualdade, fraternidade. Liberdade?


No caminho de Varadero para Havana, pergunto ao taxista/engenheiro Oscar o que ele achava sobre o governo cubano ter abolido a necessidade de autorização prévia para os cidadãos viajarem ao exterior. A resposta veio num desalento: “O que importa? Ninguém tem dinheiro pra isso mesmo....”.
                                                         * * * * *
Chegamos à capital no início da noite. O carro ziguezagueava por ruas mal-iluminadas e barulhentas em direção à casa Vitrales, nosso endereço pelos próximos dias. O proprietário, Osmany, aluga quartos para turistas. Subimos por uma escadinha íngreme e apertada. Contraste total com o Meliá, onde passáramos o fim de semana.
                                                        * * * * *

Calle La Habana, 106. A casa é confortável, reformada. Quartos amplos, banheiros e roupa de cama limpos, café da manhã feito com carinho por Selene e Pife. O casal é o braço-direito do dono da casa. Simpatia e atenção total. Não fosse pelo barulho da vizinhança, que às 6h já está a todo vapor, o sono seria perfeito.
                                                         * * * * *

Osmany nos mostra o segundo andar, onde novos quartos estão sendo construídos. Fala sobre as dificuldades de achar material e mão-de-obra na ilha. Explica que a maioria da população recebe salário do governo. O valor é baixíssimo, suficiente apenas para a cesta básica e itens de primeira necessidade. Muitos se contentam com isso. Outros, como ele, vão à luta para aumentar o orçamento.
                                                        * * * * *

"Esta noite milhões de crianças dormirão na rua, mas nenhuma delas é cubana". A frase, atribuída a Fidel, representa bem o que vemos – ou não vemos - em Havana. Lá, lugar de criança é mesmo na escola. Os pais que não garantirem isso aos filhos são responsabilizados criminalmente. Não há meninos nos semáforos, ou engraxando sapatos, ou vendendo balas, ou cheirando cola. Os filhos dos ricos e dos pobres nascem nos mesmos hospitais. E estudam nas mesmas escolas.
                                                      * * * * *

Caminha-se tranquilamente pelas ruas de Havana, inclusive de madrugada. Sem medo de assaltos ou sequestros-relâmpagos. Mas a cada passo somos abordados por gente oferecendo charutos (todo mundo tem um “primo” ou “amigo” que trabalha na fábrica), runs, passeios, artesanatos e até jantares em restaurantes clandestinos. Diante da negativa, pedem cigarro ou algum outro regalo e se vão.
                                                       * * * * *

Cuba permanece um destino atrativo para os militantes da esquerda brasileira. Tivemos, nos voos de ida e de volta, a companhia do governador do DF, Agnelo Queiroz (PT, ex-PC do B). Ele na classe executiva. Uma noite, no Museu do Rum, o ator José de Abreu (PT) dançava embalado por artistas locais. No Hotel Nacional, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo (PC do B), tomava um café e mexia em seu i-Pad no bar da piscina.
                                                       * * * * *

Antes de ir para Cuba, li em algum blog a dica para levar papel higiênico na bagagem. Precioso conselho. Esse é um item raro por lá. Nos bares, nem pensar. Nos melhores restaurantes até que tem, mas regrado e de uso estritamente controlado por senhorinhas sentadas à porta dos banheiros, pires de moedas à mão.
                                                        * * * * *

Quinze a vinte minutos de voo separam Miami de Havana. Até a década de 1950, Cuba era parque de diversões para milionários, mafiosos, políticos e traficantes dos EUA. O ditador Fulgêncio Batista vendia terras para os gringos e embolsava o dinheiro. Em janeiro de 1959, Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos e outros revolucionários tomam o poder pelas armas. A ordem é distribuir a riqueza e assegurar saúde, educação, comida e moradia para todos. O preço a pagar é a restrição às liberdades individuais. Não há mais voo direto entre a Flórida e a capital cubana.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

E o mundo (de novo) não acabou

               Foto: Ries/Honduras

A maioria nem se deu conta, mas na semana passada escapamos de uma boa. De uma boa não; de uma péssima. Dia 30 de junho era pra ter sido o fim do mundo. Pelo menos na profecia de José Luis de Jesus Miranda, um porto-riquenho maluco que se autoproclama “Jesus Cristo Homem”, e a quem seus seguidores na seita Crescendo em Graça chamam de “Papai”.

Numa interpretação tão pessoal quanto mal intencionada do calendário Maia, que supostamente previa o final dos tempos para 2012, Miranda convenceu milhares de pessoas, em mais de vinte países, de que o juízo final coincidiria com o fechamento do primeiro semestre. No dia fatídico, um sábado, os adeptos da seita – a maioria tatuada com o número 666 - se reuniram nos templos para aguardar “La gran transformación”. Veio o meio-dia, o pôr do sol, a meia noite e finalmente o domingo. E, como podemos todos testemunhar, nada do armagedon.

Alguns se desesperaram: "e agora?". José Luis de Jesus Miranda é um homem rico, milionário. Vive numa mansão em Miami, cercado de luxo e de tudo o mais que o dinheiro de seus fieis lhe permite comprar. Ex-pastor pentecostal, hoje renega qualquer outra instituição denominada cristã. Diz que elas adoram o Jesus antigo, morto. E que o Cristo vivo é só ele próprio, ninguém mais.

Aqui no Brasil, a Crescendo em Graça já se instalou em pelo menos onze estados. Concorrência de peso para Edir Macedo, Valdemiro Santiago e afins. Como diria nosso brasileiríssimo Inri Cristo: “Oh, Pai!”.

terça-feira, 17 de abril de 2012

O início, o fim e o meio

Foto: divulgação


Era 1973. Raul Seixas estava estourado nas paradas com seu Ouro de Tolo. Eu tinha só 4 anos de idade, mas já adorava aquela história de “macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco....”. Até hoje guardo o compacto da Phillips que ganhei dos meus pais na época. Dezesseis anos depois, tive a oportunidade de ver Raul ao vivo no palco em Brasília. Quer dizer, vivo mais ou menos, já que ele parecia um zumbi ao lado de seu neo-parceiro Marcelo Nova.

A verdade é que sempre fui da turma do “Toca Raul!”. E foi na condição de fã que assisti, nesta semana, a “O início, o fim e o meio”, belo documentário de Walter Carvalho. Como diz o título, o filme faz um apanhado da vida do Maluco Beleza, desde a infância em Salvador, passando pelo Raulzito e os Panteras, o sucesso no Rio de Janeiro, os casamentos e divórcios, até a degradação do alcoolismo e a morte. Um filme emocionante, dramático, mas também muito engraçado.

Numa das cenas, Paulo Coelho fala sobre a relação com o parceiro quando uma mosca impertinente passa a sobrevoá-lo. “É Raul”, decreta o mago, “Não há moscas em Genebra”. Em outro trecho, o irmão Pedro – aquele mesmo de Meu Amigo Pedro – lembra que Raul era inquieto desde criança: “Ele me acordava à noite para dizer que estava com medo de morrer. E eu mandava ele tocar uma bronha pra relaxar!”.

A obra de Raul tem lugar de destaque na cultura brasileira. Ao misturar Luiz Gonzaga e Elvis Presley – “É tudo a mesma coisa”, ria – semeou as feições do rock nacional. Em plena ditadura militar, lá estava ele gritando “Faz o que tu queres, pois é tudo da lei!”.

As mulheres são um capítulo à parte no documentário. Foram quatro ou cinco “ex” entrevistadas, e todas concordaram que Raul era um marido e pai carinhoso. Só que louco, muito louco. “Teve uma época em que ele começou a cheirar éter o tempo todo, era terrível”, desabafa Kika Seixas.

Emocionante ver, na tela, passeata recente em homenagem ao artista na frente do Teatro Municipal de São Paulo. Enquanto a multidão entoava suas músicas, um dos jovens participantes, olhos marejados, gaguejava para a câmera: “Raul está entre nós, ele está em todo lugar!”. É, a sociedade alternativa está viva.

Raul Seixas viveu como quis. Teve as mulheres que amou, cantou as letras em que acreditou, esvaziou todas as garrafas que lhe cruzaram o caminho. Morreu só, no pequeno apartamento 1003 do edifício Aliança, centro de São Paulo. Já se vão quase 23 anos, mas como disse o rapaz da passeata, ele continua a zumbizar por aqui. Um exemplo a ser e a não ser seguido pelas novas gerações.

domingo, 6 de novembro de 2011

O charuto de Churchill

“O senhor não gosta dos meus charutos. Deixarei de fumá-los”. A promessa foi feita em carta de Winston Churchill ao pai, em 1893, quando tinha 18 anos de idade. Algumas décadas depois, ele se transformaria num dos grandes líderes políticos do século 20. E também num dos maiores símbolos para os amantes de charutos em todos os tempos.

Essa e outras histórias estão em “O charuto de Churchill”, de Stephen McGinty. Leitura leve, que revela detalhes da relação de amor entre o ex-primeiro ministro britânico e o tabaco.

Churchill fumava vários havanas por dia. Era abastecido principalmente por um amigo cubano, que despachava para a Inglaterra lotes da mais fina produção da ilha. Quando veio a revolução de 1959, o amigo, rico empresário, teve suas propriedades confiscadas e fugiu para os EUA. Fidel ainda tentou presentear o premier com alguns charutos, mas os assessores de Churchill recomendaram que ele os devolvesse, pois Castro era um “comunista sanguinário”.

Antes disso, durante a Segunda Guerra, os charutos de Churchill viraram questão de segurança nacional. Ao chegarem a Londres eram cuidadosamente analisados por uma equipe de cientistas, em busca de possíveis substâncias letais.

Mas Churchill não era exatamente um homem cauteloso. Numa madrugada, em reunião na qual se decidia o apoio à União Soviética contra Hitler, Churchill foi ao seu gabinete e voltou com vários exemplares ainda não examinados: “Cavalheiros, farei uma experiência que pode resultar em alegria ou pesar. Mas fumemos esses maravilhosos charutos”.

Ao longo da vida Winston Churchill foi aclamado em várias partes do mundo, recebido em banquetes por reis e rainhas, e não se constrangia em acender seus cigarrões na presença deles.

No aniversário de 90 anos, deu sua última baforada. Estava sentado em uma poltrona, a família em volta, quando repousou o charuto no cinzeiro e desfaleceu. Morreu alguns dias depois.

Deixou uma marca incontestável na História. É considerado o maior primeiro ministro inglês de todos os tempos. Ajudou a Europa e o mundo a vencer o nazismo. Angariou prestígio e respeito por onde passou. Só não conseguiu cumprir a promessa feita ao pai na juventude.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O traidor

José Anselmo dos Santos foi um dos líderes do motim de marinheiros que, em março de 1964, ajudou a desencadear o golpe contra João Goulart e mergulhar o país na ditadura. Foi expulso da Marinha e preso; depois fugiu, virou militante de esquerda e participou de treinamentos de guerrilha em Cuba.

Retornou ao Brasil para atuar na luta armada. Em 1971 foi novamente preso e, como os demais “subversivos” da época, submetido a choques elétricos e pau de arara. Quando deixou os porões do Dops estava convertido ao regime. Agente duplo, “cachorro” dos militares, passou a delatar seus antigos companheiros. Nas suas próprias contas, ajudou o infame delegado Fleury a matar uns 200. Entre eles a mulher com quem vivia, Soledad, assassinada em Recife, no quarto mês de gravidez.

Quatro décadas se passaram desde então. Nesta semana, ligo a televisão e lá está Cabo Anselmo, na arena do programa Roda Viva da TV Cultura. Um senhor de barba e cabelos brancos desgrenhados, vestindo suéter de lã e tentando justificar o injustificável. Disse que considera “traição” uma palavra muito pesada para o que fez. “O que fiz foi evitar uma guerra civil. Só me arrependo de ter deixado a Marinha e partido para o lado da insubordinação, num momento em que o país crescia”.

Remorso? Nem pela morte da mulher. “Soledad era uma poetisa, criatura doce e carinhosa. Mas também era filha de dirigentes comunistas; foi ela quem escolheu levar aquele tipo de vida. Eu sabia dividir bem nossa relação marital e a militância. E me arrepender não vai trazê-la de volta”.

Cabo Anselmo é um homem acuado. Mais de 20 anos após o fim da ditadura, vive clandestinamente em algum canto escondido desse país. Não tem RG ou CPF. Anda pelas sombras, segundo ele sustentado por três “amigos”. “Já tive medo de morrer, hoje não tenho mais”.

Não foi fácil assistir à entrevista. Angustiante ver aquele idoso ser metralhado por perguntas sobre um passado do qual não pode escapar. Talvez nem com a morte, onde, quem sabe, encontrará Soledad e os demais companheiros que ajudou a matar.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Eu fui

Meses atrás, quando começaram as vendas de ingressos para o Rock in Rio 2011, escrevi aqui que não iria. As bandas convidadas não eram as minhas favoritas, não estava disposto a encarar a multidão prevista e nem tampouco gastar uma grana pra ir de Brasília até o Rio ver o evento. Fui. No sábado, 24.

Confesso que meio reticente, sem grandes expectativas. E uma vez em terras cariocas, cheguei a duvidar que tomara a decisão certa. No Galeão, os taxistas cobravam R$ 50,00 por pessoa até a zona sul. E só saíam do aeroporto com um mínimo de quatro passageiros. Optei pelo “frescão”, R$ 9,00 até Copacabana.

No hotel liguei o Multishow pra conferir a noite de abertura. Cláudia Leitte cantava algo como “a corda do caranguejo” e convidava o público a se sentir “no carnaval de Salvador”. Putz! No intervalo, várias pessoas entrevistadas reclamavam da falta de segurança no local; os registros de furtos passavam de 70 só no primeiro dia. Onde é que eu tinha amarrado minha canoa?

Na noite seguinte lá estava eu. Eram 19h30 quando cheguei à Cidade do Rock. Tentei comprar uma cerveja, mas as filas do Bob’s e dos outros pontos de venda estavam impraticáveis. Desisti. Rock in fila total.

Fui conferir o show do Milton Nascimento, que se apresentava no palco Sunset ao lado de Esperanza Spalding, segundo ele sua mais nova “parceira para o resto da vida”. Emocionante ver o Bituca cantando Maria Maria acompanhado por uma multidão de vozes e palmas.

Depois do Milton, realmente era hora de molhar a garganta. Quase meia hora de fila, chopp Heineken a R$ 6,50. No palco secundário, Milton fora substituído por Mike Patton, ex-Faith No More, que quebrava tudo com seu Mondo Cane, projeto no qual faz releituras inusitadas – e pesadas – de clássicos da música italiana. Genial!

Algumas filas depois, ouvi acordes conhecidos vindos do palco principal. O velho Capital Inicial mostrava vigor, reverenciando o rock brasiliense e liderando o mar de gente na pergunta que não quer calar: “Que país é esse?”

Já era madrugada quando o Red Hot Chili Peppers subiu. 100 mil pessoas acompanharam, eletrizadas, Otherside, Californication, By the way e outros sucessos. O show caminhava para o final quando puxei minha mulher pra irmos embora. Não agüentava mais ficar em pé e nem pegar fila. Queria entrar logo no ônibus e voltar pra Copa.

Eu fui, foi legal. Chego em Brasília e leio que já anunciaram o Rock in Rio 2013. Dessa vez, acho que não vou.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Direitos adquiridos

Há três domingos, o ator e diretor Antônio Pedro publicou na revista O Globo a crônica "Se quiser beber, eu bebo". Uma crítica ao politicamente correto exasperado que anda à solta. Aliás, mais do que isso: um manifesto à liberdade de ir, vir e ser como quiser. Aqui, a reprodução do texto, em homenagem à rebeldia jovial do velho autor.


"Eu tinha 12 anos. Minha mãe, uma senhora de opinião, estava descontente com minhas notas no boletim. Nenhuma no vermelho, mas, na opinião dela, um rapaz inteligente como eu não podia tirar menos que oito. Se no próximo boletim viessem notas menores que oito, eu ficaria sem mesada e sem cinema. No boletim seguinte, tirei zero em tudo. Até em canto orfeônico.

Minha mãe, senhora inteligente, entendeu o recado. No fim do ano ganhei a chave de casa. Desde criança, tenho aversão a enquadramentos.
Mais tarde, nos anos 70, em analise com o Eduardo Mascarenhas, ele me confessou:

- Estou com uma puta inveja de você.
- Por quê?
- Porque ontem, para entrar no Antonio´s, tive que passar por cima de você, que dormia na porta. Se eu fizesse isso, perderia todos os meus pacientes, inclusive você, que não para de trabalhar.

Na época, eu era um diretores de teatro mais requisitados do Rio. Ganhava uma grana, e tive o prazer de derrubar com amigos todas as garrafas de champanhe penduradas no bar do Antonio´s. Ninguém, então, estava preocupado com meu comportamento, mas com minha competências no trabalho.

Tenho orgulho da minha militância boêmia e artística (vide porres e prêmios). Sou da estirpe das cigarras, e quando uma formiguinha trabalhadeira me contesta, sinto pena que ela não esteja aproveitando a vida, a única de que podemos afirmar a existência.

E, de repente, não posso mais chamar um amigo careca de Careca, um companheiro negão de Negão, nem a minha nega de Nega.

Não posso mais contar piada de judeu, nem de galego, nem de turco e, se bobear, o Ibama vai me multar se eu contar uma piada de papagaio.

Tudo virou insulto. Só que o insulto está na intenção de quem insulta. Posso insultar alguém chamando-o de Vossa Excelência. Ou está na sensibilidade do insultado: tem gordo escroto que fica brabo porque o chamaram de gordo. Ou na confusão de elogio com insulto: a moça que fica passada porque foi chamada de gostosa. Ou nas "n" possibilidades de relacionamento humano, Teve um tempo em que era proibido fazer piada de milico. Hoje há um catalogo de impossibilidades, Sem falar nos herdeiros bem-pensantes de falecidos velhos sátiros que conheci.

Enquadre-se a verve carioca! Seja Otario!
Esta paranóia americana pós 11 de Setembro quer enquadrar todo mundo para se sentir segura. O medo cria uma legislação sobre o ilegislável. Eu odeio palitos envelopados. Quero meu açucareiro de volta, meu churrasquinho de gato na esquina, minha sopa de ervilha na birosca da Mangueira. Quero ver meu filho cantando 'Atirei o pau no gato, to!'

Querem legislar sobre o meu corpo, meus sentimentos, sobre minha vida, pombas!

Se eu quiser fumar, eu fumo; Se quiser beber, eu bebo. Tenho 70 anos. Direitos adquiridos. Me recuso a viver sob a norma dos tartufos (hipócritas e falsos)!

Ao 'vem por aqui' do politicamente correto, respondo como José Régio: 'Não sei por onde vou, não sei para onde vou. Sei que não vou por ai.'"

(Antônio Pedro, revista O Globo, 11/09/2011)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Um homem chamado Maria

Fim de tarde, hora de fechamento na redação. O cronista, enlouquecido sobre a máquina de escrever, luta pra terminar a coluna do dia seguinte. Aproxima-se uma senhora humilde, que ele nunca vira: “Moço, preciso de ajuda. Sou da campanha contra o câncer”. E ele, sem tirar os olhos do teclado: “Pois eu sou a favor”.

O redator em questão é Antônio Maria - cronista, jornalista, compositor, locutor esportivo e boêmio, que Joaquim Ferreira dos Santos biografa no livro “Um homem chamado Maria”. O “menino grande” saiu de Pernambucano aos 19 anos, em 1940, e adotou os bares e boates de Copacabana como lar. Até morrer na porta de um deles, aos 43, vítima de infarto fulminante.

Morte fulminante, vida intensa. Morou em república com Chacrinha e Dorival Caymmi, dividiu cabines do Maracanã com Ary Barroso, enxugou tonéis de uísque com Vinicius de Moraes, e deixou sambas-canções imortalizados no cancioneiro popular, como “Ninguém me ama” e “Manhã de Carnaval”. E apesar de gordo, grande e desajeitado, namorou algumas das mais belas musas da época, entre elas Danuza Leão, grande amor da sua vida.

Encontrei o livro numa promoção, e confesso que relutei a botá-lo no carrinho. Não me arrependi. Nas 179 páginas, histórias deliciosas e bem-escritas pela pena afiada de Joaquim, que em várias partes preferiu abrir aspas para a mente inquieta de Maria:

“Nenhuma emoção é mais forte que a de entrar no quarto da amante que dorme. Sentir-lhe o cheiro e o calor no ar do quarto. Deitar ao seu lado, se possível bêbado”;

“Gente boba e vazia. Vaidosos, frívolos, ricos. Gosto, porém, de conhecê-los para ver até onde chega sua organizadíssima miséria humana”;

“Não há sensação mais curiosa do que a de encontrar a ex-namorada pela primeira vez com o seu atual. Por mais que a gente lhe olhe o rosto, não lhe vê as feições”;

“Tenho a impressão que ser minha mulher acaba com qualquer pessoa”;

“Escrevi dez páginas de humorismo para o rádio. Com o desgosto de sempre. Não me acho engraçado”;

E uma última, profética:

“Devo morrer cedo, de repente, por causa desses meus exageros”.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Pai aos 88

Vejo na TV a imagem de um casal sorridente, debruçado sobre a incubadora onde seus filhos gêmeos, cada um pesando 1,5 kg, aguardam a alta da maternidade. A mãe olha para o pai, e diz que o nascimento das crianças – um menino e uma menina – é a confirmação do amor que os une. Os bebês nasceram prematuros, após duas tentativas de inseminação artificial.

Uma cena comum, não fosse pela idade dos pais, mais precisamente a dele: 88 anos. Isso mesmo, oitenta e oito anos de idade (Ela, 52)! Tubo bem, ele está vivo e tem o direito de fazer o que quiser nos anos que lhe restam. Mas trazer à luz duas crianças não é brincadeira. Principalmente porque é só agora, após o nascimento, que começa a luta para educar e acompanhar os filhos até a vida adulta.

Porque criar filhos é ficar acordado à noite, é levá-los para a escola de manhã cedo e para as festinhas dos amigos nos sábados à tarde; é brincar de carrinho, de casinha e jogar bola quando o corpo preferia uns minutos de descanso no sofá. Esforço físico e dedicação psicológica integral. E por mais saúde que o papai da TV tenha, certamente não terá pique nem anos úteis para tanto. Não se trata de ser cruel; é a lei da natureza.


Falando sério, acho que aos 88 já passou da hora de desacelerar, relaxar e tentar curtir calmamente as últimas primaveras da vida. Uma fase, digamos, mais contemplativa. Desfrutar o mundo que se construiu, conversar com netos e bisnetos, rever os amigos e parentes que ainda estão por aqui.

Pode ser que eu esteja errado e que, aos 88 (se lá chegar!), sinta uma baita vontade de ter mais filhos. Por enquanto, duvido que aconteça.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Brasília 10%

Foto: Mara Melo

Há quase 100 dias não chove em Brasília. Nenhuma gota de água. Nas últimas semanas o calor chegou a 34ºC; e a umidade do ar, a 10%. Clima de Saara na capital da República. Tá certo que a seca por aqui não é nenhuma novidade. Todo meio de ano é assim: dias quentes, noites frias e estiagem bruta. Mas que a coisa tem piorado de uns tempos pra cá, isso tem.

Em agosto, os focos de incêndio atendidos pelos bombeiros nos quatro cantos do DF chegaram a 250. A todo momento é um tal de caminhão vermelho tocando sirene pra lá e prá cá. Muita fumaça e muita poeira no ar. Os olhos ardem, o nariz sangra, a pele racha. E dá uma preguiça...vontade de ficar em casa, na sombra, sem fazer nada.

Pra quem está de passagem, fica difícil entender como é que conseguimos viver em condições assim. Mas, como tudo na vida, acabamos nos acostumando com esse ciclo. E, pensando bem, essa secura toda até faz parte da nossa memória afetiva.

É nessa época que o por-do-sol fica mais bonito - uma grande bola avermelhando o horizonte. As noites estreladas, um convite para estar ao ar livre. E tem os ipês: amarelos, roxos, cor-de-rosa, brancos. É no auge da seca que eles resolvem dar as caras, e florescem exuberantes sobre a grama cinza.

Início de setembro, em Brasília, começam as apostas sobre a chegada da chuva: “Próxima semana”, “Lá pra segunda quinzena”, "Só no fim do mês". E quando ela vem, aquele cheiro de terra molhada, o verde voltando, algazarra das cigarras. Uma sensação boa, de vitória. Como se tivéssemos sobrevivido a uma guerra. Que venham outras.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Fila do banco

Quando a agência da Caixa abriu, às 11h daquela segunda-feira, a fila já devia estar grande. Cheguei uma hora depois, e cruzei com vários funcionários saindo para o almoço. Lá dentro, pouca gente pra atender uma multidão. Pensei em dar meia volta e desistir, mas fazia meses que adiava aquela ida ao banco. Tinha um saldo do FGTS a receber, coisa de R$ 1 mil mais ou menos.

Peguei a senha 43 do setor de fundos e benefícios federais. A última do painel era a 19. Sentei e procurei relaxar. Uma olhada no celular, uma conferida nos documentos que levara, uma folheada na velha carteira de trabalho..."Senha 22". À minha volta, homens e mulheres simples, trabalhadores calejados em busca de alguma migalha perdida na burocracia estatal. E também vários beneficiários do Bolsa Família que não conseguiram sacar o dinheiro na boca do caixa.

No balcão, apenas duas funcionárias: uma senhora atenciosa e barulhenta, que tratava todos como crianças - “Dona Maria, querida, deixa eu ver sua identidadezinha, meu bem?” – e uma jovem calada, com jeitão de estagiária. “Senha 25”.

Parecia fila de confessionário. A cada número chamado, um drama pessoal. “Seu José, o sr. não tem saldo na continha do fundo não. Será que seu empregador fez mesmo o recolhimento?” E o seu José, coitado, sem saber o que fazia ali. “Dona Aparecida, meu amor, estou vendo aqui no sistema que sua Bolsa foi suspensa”. E a velha senhora, atônita, pensando no que dizer quando chegasse em casa de mãos abanando. “Senha 34”.

Seu Sebastião, um idoso boa praça que chegou amparado em muletas, admitiu, após várias explicações, ter sido demitido por justa causa, daí a indisponibilidade de seu Fundo de Garantia. “É que na época eu gostava de um gole, moça. Faltava muito ao serviço! Depois disso nunca mais trabalhei com carteira assinada”. Outra senhora se exaltou ao não conseguir sacar a Bolsa Família do marido: “Aquele sem-vergonha foi embora e disse que eu podia ficar com o cartão!”. “Senha 42”.

Faltava só um para eu ser atendido. Uma e quinze da tarde. Levantei-me esgotado pela espera, mas comovido com tanta história difícil que ouvira. O 43 surgiu no painel e indicou o balcão da funcionária mais experiente, aquela atenciosa e barulhenta. Em vão: “Meu senhor, pode aguardar mais um pouco que a moça aqui do lado vai atendê-lo. Deu minha hora de almoço”.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

The Pelvis

Dezesseis de agosto de 1977. Eu tinha nove anos de idade, mas lembro como se fosse ontem. Família reunida para o almoço (jantar?) de uma terça-feira comum. Televisão da sala ligada, o locutor (Cid Moreira?) dá a notícia: “Morreu hoje, aos 42 anos, o cantor Elvis Presley. Foi encontrado caído no banheiro de Graceland, sua mansão em Memphis, Tenessee”.

Naquela época não havia internet, nem twitter, nem celular e nem TV a cabo. Mas a morte do "Rei do Rock" se tornou onipresente na mídia de então. Jornais, revistas, rádios, só se falava nele. E na telinha, tome reprise de O Seresteiro de Acapulco, Feitiço Havaiano, Ama-me com Ternura, Viva Las Vegas e outros “clássicos”.

Elvis virou febre, e entre uma partida de futebol e um rolé de bicicleta, gostávamos de imitá-lo com a gola levantada, voz grave e empostada, beijando uma a uma as garotas da plateia.

Fã mirim de Beatles e Raul que era, adicionei o repertório presleyano aos meus “favoritos”. Naquelas semanas, ganhei dos meus pais um compacto com It’s Now or Never de um lado e Jailhouse Rock do outro. Até hoje guardo o vinilzinho no fundo de um armário lá de casa.

Passados exatos 34 anos daquela terça-feira, da qual – tudo bem, admito - as lembranças surgem embaçadas, fica a homenagem a Elvis Aaron Presley. Que neste vídeo canta Suspicious Minds, um de seus maiores sucessos.

sábado, 30 de julho de 2011

Hora da caça

Imagens: Mara Melo

Foi Inocco quem nos explicou, durante parada que fizemos para admirar o pôr-do-sol da savana: os Big Five, grupo de animais mais “prestigiados” num safári, não têm esse nome por causa de seu tamanho, mas por reagirem ferozmente contra os caçadores. Essa tropa de elite é formada por leões, leopardos, elefantes, búfalos e rinocerontes.

Inocco conhece bem o assunto. Há anos, ele e o parceiro Freedom ganham a vida conduzindo deslumbrados visitantes pelos 13 mil hectares do Kapama Game Reserve, área limítrofe ao Parque Nacional Kruger, maior e mais antigo santuário de animais da África do Sul.

Brincalhões e irreverentes, é só subir na Land Rover para assumirem ar compenetrado. Concentração máxima em busca de rastros, rugidos, cheiros. Visão, audição, olfato, todos os sentidos alertas para encontrar os bichos que vivem livres pela reserva. E quando localizam algum espécime mais raro, frequentemente se entusiasmam mais do que os próprios turistas.

Fazem isso todos os dias e meses do ano. E aos que perguntam se, com o tempo, esse trabalho não fica monótono, a reposta vem rápida: “Você nunca sabe o que vai encontrar num safári”.

Guiados por Freedom e Inocco, presenciamos cenas que até então só conhecíamos via National Geographic, Discovery Channel e afins. Uma delas está neste vídeo, em que o leopardo, sentado a uns 20m ou 30m de nós, almoça tranquilamente o antílope que acabara de capturar.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Prisão cinco estrelas

País desenvolvido é outra coisa. Na semana passada, um louco ultra-direitista de 32 anos aterrorizou a Noruega. Primeiro detonou um carro bomba que atingiu quatro prédios públicos em Oslo. Depois foi à ilha de Utoya e abriu fogo contra um acampamento de jovens ligados ao partido trabalhista. Saldo do duplo atentado: 76 mortos, segundo as autoridades do país.

Mas, estava dizendo, primeiro mundo é primeiro mundo. O autor confesso desses assassinatos foi identificado e preso. E como na Noruega não existe pena de morte, Anders Behring Breivik pode passar o resto de seus dias em Halden Fengsel, um dos mais modernos e “humanos” centros de detenção da Europa.

O lugar mais parece um resort de luxo. Lá, os hóspedes – detentos – dispõem de academia de ginástica, campo de futebol, biblioteca, estúdio musical e outros espaços de lazer. As celas – suítes - contam com televisores LCD e decoração exclusiva.

Halden Fengsel foi construído para abrigar presos perigosos. O sistema penitenciário norueguês aposta na reabilitação de seus "visitantes".

Mas atenção: Anders só pegará prisão perpétua SE realmente for considerado “uma ameaça à sociedade”. Foi o que antecipou o juiz Kim Heger, responsável pelo caso.

sábado, 23 de julho de 2011

Amy, 27

A primeira vez que ouvi Amy Winehouse foi na casa de um amigo, acho que há uns três ou quatro anos. Entre um copo e outro de vinho ele pôs na TV o DVD Back to Black. O impacto foi imediato. Aquele soul meio jazzístico, com pegada roqueira, voz de diva numa figura miúda, maquiagem pesada, cabelos longos displicentemente amarrados, vestido curto...“adolescente dos anos 60”, como ela própria descrevia seu estilo. “Quem é essa aí, cara?”.

Cheguei em casa e corri para a internet pra baixar suas músicas. Que logo viraram hits no meu carro e no i-pod. Parênteses: de vez em quando ouço algumas críticas por, em geral, preferir sons mais antigos aos atuais. De fato, minhas bandas prediletas são as dos 60, 70 e 80. Mas não significa que estou fechado a novidades. Amy é prova disso.

Em janeiro deste ano, estava de férias em Pernambuco quando ela tocou por lá. Não fui. Preferi ficar quieto na praia a pegar 60 km de estrada, batalhar ingressos com cambistas, voltar de madrugada e, sei lá se ia ter show mesmo. Porque Amy tinha dessas coisas. Mas o show aconteceu. Ela saiu do Rio de Janeiro de jatinho, foi direto do aeroporto pro centro de convenções de Olinda, permaneceu – relativamente sóbria - 45 minutos no palco e voou para seu refúgio carioca.

Hoje eu voltava pra casa após o almoço quando ouvi a notícia de sua morte. Encontrada no chão de um flat em Londres. Tinha 27 anos, como Janis, Morrison, Hendrix, Cobain etc. (No mardecoisa.blogspot.com Leando Wirz fala a respeito).

Tá certo, não foi exatamente uma surpresa; esse desfecho já era esperado. Mas que é uma pena é. A música perde uma de suas maiores estrelas neste século. E eu, agora, terei de me esforçar pra convencer os amigos de que não curto só sons do passado.

Neste vídeo, Amy, em plena forma, canta You Know I’m no Good.


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Mandela's Day

Foto: Museu do Apartheid, Johannesburgo

Quando Nelson Mandela deixou a cadeia, em maio de 1990, após 27 anos recluso, foi recebido pela mulher, Winnie, em uma nova casa. Ampla, confortável e principalmente segura, a residência fora equipada com vidros blindados, câmeras e cercas elétricas. Tudo para receber o morador ilustre, que se tornara celebridade política internacional.

Adquirida com ajuda do ator Clint Eastwood, a construção contrastava com a pobreza da vizinhança. Madiba não gostou: “Passei tanto tempo preso e agora vocês querem me confinar aqui?”. Seu desejo era andar livre pelas ruas, conversar com o povo, liderar o golpe de misericórdia no regime de segregação. Em pouco tempo, divorciado, Mandela seria presidente da África do Sul.

Ainda hoje Winnie mora naquela casa, que virou atração turística para quem visita o Soweto. Aliás, o distrito negro, colado em Johannesburgo, raramente está nos roteiros das agências de viagens, que preferem levar os clientes para o circuito “safáris-praias-vinícolas” do país. Uma pena. Visitar o local é estar frente a frente com um capítulo marcante da história mundial.

Ao contrário do que muitos pensam, o Soweto não é uma favela. Trata-se de um conjunto de bairros que, juntos, abrigam 4 milhões de moradores. Sim, há barracos e há miséria, agravada pela vinda de refugiados de Moçambique, Namíbia e outros países mais pobres do continente.

Mas existem também boas casas, escolas, ruas asfaltadas, comércio variado, restaurantes de comida tradicional e outros equipamentos urbanos. E até uma TV Soweto, com conteúdo produzido pela comunidade. Melhorias conseguidas graças à consciência cidadã forjada no embate político-social.

"Perdoem, mas não esqueçam!”, foi uma determinação de Mandela que a população dali seguiu a risca. As cicatrizes são expostas com orgulho. Exemplo disso é o Hector Pieterson Memorial, erguido em homenagem ao jovem estudante assassinado pela polícia branca em 1976. A foto de seu cadáver carregado por um colega abriu os olhos da comunidade internacional para o absurdo do Apartheid, e hoje estampa a fachada do museu.

A Vilakasi Street também é parada obrigatória: trata-se da única rua do planeta que já foi endereço de dois prêmios Nobel da Paz: do próprio Nelson Mandela e do bispo Desmond Tutu.

Em toda a África do Sul, e não apenas no Soweto, a figura de Mandela é reverenciada como a do maior herói nacional. O homem que conseguiu unir negros e brancos, reinventando o país como nação democrática.

Neste 18 de julho ele completou 93 anos de idade. Aposentado da política, continua ativo no enfrentemanto à epidemia de Aids na África. Em seu aniversário, anualmente, o mundo celebra o Mandela’s Day. A ideia é que, inspiradas no seu exemplo, mais e mais pessoas façam algo em favor de uma humanidade melhor. Que tal ser Mandela por um dia?

Foto: Memorial Hector Pieterson, Soweto



Fotos: Celso Cavalcanti - Soweto